De: Manoel A.A. dos Santos1, Maria J. Faria1, Daniele B. L. Oliveira1, Jorge Timenetsky 2– 1-Lab. Micobactérias, 2- Lab. Bact. Oportunistas. - Dep. Microbiologia – ICB USP
Manoel A.A. dos Santos1, Maria J. Faria1, Daniele B. L. Oliveira1, Jorge Timenetsky 2– 1-Lab. Micobactérias, 2- Lab. Bact. Oportunistas. - Dep. Microbiologia – ICB USP. Av. Lineu Prestes, 1374 – Ed. Biom. II – 05508-900 – São Paulo – SP Mycobacterium tuberculosis (Mtb), é o principal agente etiológico da tuberculose (tb) humana e infecta atualmente cerca de 1/3 da população mundial. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima a existência de 8 milhões de novos casos resultando em 3 milhões de óbitos, a cada ano (Dollin, 1993; WHO, 1994).
Diversos fatores contribuem para o reaparecimento da tb no mundo, e entre êles estão incluídos: situação epidêmica da AIDS; imigração dos portadores de tb de áreas consideradas endêmicas; diminuição da eficácia do Serviço de Saúde Pública (Metchock, 1999); como também, ironicamente, a Medicina, que motivada pela busca da cura da tb, favoreceu o aparecimento de cepas multirresistentes aos agentes antimicrobianos (MDR = multi drug resistance), resultantes do abandono precoce da medicação prescrita (Mckinney, 1998).
O tratamento clínico dos casos recidivos, bem como dos causados por Mtb-MDR, acarretam elevado custo hospitalar, aproximadamente 100 vezes superior ao dos convencionais. Esse panorama aliado ao crescente número de óbitos, resultantes dessas formas de tb, requerem a adoção de medidas preventivas a tuberculose.
No Brasil, a vacina BCG é utilizada com finalidade preventiva, porém, atualmente existem opiniões controversas quanto sua eficácia .Alguns pesquisadores, mesmo conscientes da limitação desta vacina, são favoráveis ao seu uso em crianças. Outros, acreditam que a sua aplicação induz somente a resposta imune do tipo humoral, e não a celular, que necessária para o controle da doença (Horwitz, 1997)
A transmissão da tb pulmonar ocorre de um indivíduo para outro através da inalação do Mtb, que é veiculado no interior de gotículas da saliva, as quais compõem o aerossol produzido pelo tuberculoso, principalmente durante a fala, a tosse e ou espirro.
Essas gotículas se mantém íntegras até 3 dias no meio ambiente, moduladas pela composição química da parede celular do Mtb (Salyers and Whitt, 1994).
Recentemente, Baquião & Santos, 1999, demonstraram a ocorrência de bactérias do Complexo Mtb ( M. tuberculosis, M. bovis, M. africanum e M. microti) nas fezes de 2% dos cães, aparentemente sadios, da cidade de São Paulo. Com base nesse achado, é possível incluir, também, esses animais entre os participantes da cadeia epidemiológica da tuberculose, pois trata-se de um “reservatório” adicional que mantém contato íntimo com o homem.
Baseados no modêlo da etiopatogenia da tuberculose, principalmente no que se refere a transmissibilidade, é possível caracterizar o meio ambiente como principal responsável pela condução da micobactéria ao eventual hospedeiro. O objetivo desta comunicação é a apresentação de um novo composto ativo, Brometo de Lauril Dimetil Benzil Amônio (BLDBA) em solução aquosa a 0,16% (K-ODONTO PLUS) a ser utilizado como desinfetante químico micobactercida.
Além disso, o produto reúne outras características fisico-químicas, como por exemplo, ser inodoro e não ter atividade, tóxica nas condições de uso (Patarca, 1995). Os desinfetantes químicos por definição não precisam ser esporocidas (Block,1991). A atividade micobactericida é a mais desejada entre os desinfetantes químicos, pois o outras bactérias não esporuladas e não BAAR são mais sensíveis (Mcdonne, 1999).
Neste estudo foram utilizadas amostras de micobactéria padrão e selvagens. A atividade micobactericida indica amplo espectro de ação entre bactérias em geral incluindo as BAAR (Cremieux & Fleurette, 1991; Maurer, 1985). A atividade micobactericida foi demonstrada a partir de suspensões bacterianas obtidas do cultivo em meio Löweinstein-Jensen (L-J) (DIFCO), constituídas pela: cepa ATCC 25177 e duas amostras recém isoladas; 92-ICB e 111-ICB (Kimie, 1999).
As suspensões de micobactérias foram obtidas em água destilada estéril, com turvação igual a sua diluição em 1/100 e semelhante ao tubo número 2 da Escala de MacFarland. A suspensão final submetida ao contato com o desinfetante na proporção V/V apresentou em média cerca de 104 UFC em 400µL. O produto desinfetante foi avaliado sem diluição e diluído em água de torneira estéril a 1/10, 1/100 e 1/1000.
As avaliações foram realizadas após contato imediato do produto com as bactérias e com 5, 10,15, 20, 25, 30 , 60 e 120 minutos de incubação a 22O C. Como controle o produto desinfetante foi substituído por solução fisiológica a 0,9%. Nos subcultivos, após tratamento com o desinfetante, as suspensões bacterianas foram lavadas com salina para remoção de resíduos. A quantificação de bactérias sobreviventes foi realizada pelo emprego de alça de bacteriológica padronizada para 10 *L.(Cremieux, 1991)
TABELA - UFC MÉDIO DAS 3 CEPAS DE Mycobacterium tuberculosis
OBTIDAS APÓS TRATAMENTO DE ATÉ 2 HORAS COM DIFERENTES DILUIÇÕES DA SOLUÇÃO DESINFETANTE DE BROMETO DE LAURIL DIMETIL BENZIL AMÔNIO (K-ODONTO PLUS) a 0,16 % .
Diluição\ Tempo 0 5 10 15 20 25 30 60 120
Puro 190 86 12 3 0 0 0 0 0
1/10 inc inc inc 169 126 93 89 7 3
1/100 inc inc inc inc inc inc inc inc inc
1/1000 inc inc inc inc inc inc inc inc inc inc= UFC superior à 300.
Em relação ao inóculo controle (10ul), o produto não diluído revelou a melhor atividade micobactericida, nas condições testadas.
Obteve-se Efeito Germicida aproximadamente 3 (3 log a base de 10 de redução ou pelo menos 99,9% de redução) após 20 minutos de contato( tabela ); EG de aproximadamente 2 (99% de redução) após 15 minutos; e EG de aproximadamente 1( 90% de redução) após 10 minutos de contato. Os resultados obtidos quando do uso do desinfetante diluído a 1:10, revelou EG de aproximadamente 2 após 1 hora de contato.
As diluições de 1/100 e 1/1000 não revelaram atividade micobactericida. No experimento controle obtêve-se em média cerca de 300 colônias das micobactérias, e em função da redução em relação a esta referência estimou-se os EG apresentados (Cremieux, 1991) A atividade antimicrobiana mais rápida é sempre a mais desejável, pois minimizam-se os efeitos dos fatores interferentes da eficácia de desinfetantes químicos nos processos de descontaminação (Maurer,1995)
A expressão da atividade antibacteriana para desinfetantes químicos de uso hospitalar, institucional ou domiciliar tem que ser bactericida por definição e quanto maior a capacidade de redução da viabilidade uma população microbiana melhor é o produto desinfetante (Cremieux, 1991)
A obtenção de resultados quantitativos na atividade antibacteriana de desinfetantes revela com melhor precisão a capacidade do produto em reduzir o inóculo de um agente infeccioso nos diversos veículos de sua transmissão. Desta maneira, as doses infectantes de agentes infeciosos devem ser conhecidas. (Cremieux, 1991) Convém lembrar que os fatores interferentes na atividade antibacteriana de desinfetantes químicos podem ser imprevisíveis devido a variedade de ambientes que estes produtos podem ser aplicados.
Assim a limpeza prévia é fundamental. Um desinfetante ideal não existe, pois é difícil conciliar simultaneamente; amplo espectro de ação, baixa toxicidade, não corrosivo, inodoro, estabilidade química com ou sem matéria orgânica, disponibilidade fácil e de baixo custo. Assim sendo, o produto ora testado possui diversos fatores favoráveis na lista de um desinfetante ideal. (Cremieux, 1991)
Baseado no modelo da estrututa bioquímica da parede celular do Mycobacterium tuberculosis ( Brennam & Draper – 1994 ), é possível estimar a ação bactericida do brometo dimetil lauril benzil amônio ora demonstrado. A parede celular do M. tuberculosis é constituida por uma membrana rígida, dividida em 4 camadas. A mais interna, junto ao citoesqueleto, composta de peptidoglicano que consiste num arranjo de cadeias, em paralelo, de N-acetilglicosamina e unidades de ácido murâmico.
Através de uma ligação covalente da região dissacáride fosfatada, o peptidoglicano é ligado a estrutura arabinogalactano - micolatada, formando assim, o esqueleto da parede celular. Finalmente, a camada externa composta de: lipídeos, glicolipídeos e proteínas, pode variar consideravelmente entre as espécies de Mycobacterium.
Entre os glicolipídeos associados à parede e atuando como um plasma, está ancorada a camada de lipoarabinomanose (LAM). Esta, parece desempenhar atividades biológicas relevantes a etiopatogenese da tuberculose, e entre as quais estão incluídas: inibição da ativação de células T e da ativação de macrófagos por interferon-*, inibição da atividade da proteina kinase C e da indução de macrofagos na secreção de várias citoquinas, incluindo TNF*, e configura a principal barreira aos antimicrobianos.
O BLDBA pode atuar no esqueleto da parede celular do Mycobacterium tuberculosis, mais precisamente nas ligações covalentes fosfatadas da estrutura micolato-arabinogalactano-peptidoglicano, interferindo na sua arquitetura, promovendo uma ação de desnaturação proteica, junto a camada de peptidoglicano. O LAM pode desta maneira ser liberado, enfraquecendo toda estrutura e proporcionando o início de um desequilíbio iônico e consequente morte celular.
A atividade micobactericida do BLDBA, na concentração indicada pelo fabricante (0,16%), após tempo de contacto igual a 20 minutos, à temperatura ambiente, aliados a algumas de suas características físico-químicas, representadas por: ausência de átividade tóxica às células eucariotas, inodora e incolor, as quais traduzem sua sensibilidade para eliminar as micobactérias do meio ambiente, bem como a simplicidade do seu emprego, justificam plenamente seu uso rotineiro nos processos de desinfecção de superifícies externas.
BIBLIOGRAFIA
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Brennam,P.J. & Draper,P. – Ultrstructure of Mycobacterium tuberculosis. In “Tuberculosis; Pathogenesis, Protection and Control” (B.R. Bloom. Ed) ASM Press, Washington, D.C. – USA, 1994, pp. 271-284.
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World Health Organization. -TB epidemic outpaces new drug development. 1994 Resumo
É demonstrada a atividade micobactericida de um novo desinfetante químico a base do Brometo de Lauril Dimetil Benzil Amônio, em solução aquosa a 0,16% (OAGA). Os testes microbiológicos foram realizados contra 104 UFC de 3 amostras de Mycobacterium tuberculosis (cepa ATCC 25177 e 92-ICB e 111-ICB), a 22*C, durante o período de até 2 horas e nas concentrações: puro ( forma apresentada pelo fabricante ) e diluído, em água destilada, a 1/10, 1/100 e 1/1000. Os resultados evidenciram o Efeito Germicida de até aproximadamente 3 ( 99,9%de redução com produto não diluído), em vinte minutos.
Considerando a atividade micobactericida, associada a baixa toxidade do composto, nas condições recomedadas de uso, concluiu-se que este produto possui fatores favoráveis para um desinfetante ideal.
Estas caracteristicas, portanto, indicam a sua aplicação com agente auxilar no cotrole da propagação de doenças infecciosas incluindo a tuberculose.
Summary
A new chemical disinfectant with mycobactericidal activity is presented. This product contains 0.16% of bromide salt ( bromide of lauril dimetil benzil amonium ) in aqueous solution. It was tested at dilutions ( 1/10, 1/100 and 1/1000) and non diluted form against 104 CFU of 3 strains of M.tuberculosis for up 2 hours at 22°C. The hights Germicidal Effect obtained was about 3 ( 99,9% of reduction) and it was detected after 20 minutes of contact with non diluted solution. Dilutions of 1/100 and 1/1000 did not show mycobactericidal activity.
Considering such activity and low toxicity, this product is recommended for descontamination of surfaces. It was concluded that this product has favorable features for the choosing disinfectants.
These characteristics showed an wide spectrum of activy among bacteria and helpful as disinfectant for the control of infectious agents as mycobacteria.
Palavras Chaves
M. tuberculosis, desinfetante, brometo de lauril
M. tuberculosis, disinfectant, bromide
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